Discoteca Biográfica

[Discoteca Biográfica] Echo & the Bunnymen

Echo & the Bunnymen (WEA, 1987)

Artista: Echo & the Bunnymen

Selo/Ano: WEA/Sire, 1987

Produção: Laurie Latham

Notas pessoais: circa 1987/1988. Se não me engano, quem me deu o disco foi Rodrigo Polezze, a título de amigo-secreto. Era eu, então, um ávido leitor da revista Bizz. Acreditava que a guitarra era uma espécie de facilitador social. Tinha me decepcionado, pela segunda vez, com o futebol e não estava acompanhando os campeonatos. À época, acho que estava ouvindo o Face dances (The Who, 1981), Sgt. Pepper’s lonely hearts club band (The Beatles, 1967), The gift (The Jam, 1982), Darklands (The Jesus & Mary Chain, 1987), Mudança de comportamento (Ira!, 1985), Vivendo e não aprendendo (Ira!, 1986), Violeta de Outono [EP] (Violeta de Outono, 1987), Ao vivo no Mosh (Smack, 1984) e Cadê as armas? (Mercenárias, 1987).

*

Era um momento de descobertas para mim. Já escutava coisas “antigas”, como Beatles e Who, mas prestava muita atenção no que estava acontecendo no cenário. Jovem de classe média, morando em uma cidade do interior, pude passar tardes e tardes lendo sobre rock e ouvindo alguns discos importantes. E, claro, tinha amigos que também estavam interessados nisso tudo, embora gostassem de outros sons, outras batidas e outras pulsações.

Quando ganhei este álbum, não conhecia Echo & the Bunnymen. Já havia lido algumas coisas sobre eles e, mesmo, tinha acompanhado, pelos jornais, a passagem dos caras pelo Brasil. Foi no fim dos anos 1980 que fomos inseridos no circuito de shows das bandas rock – nessa época, o Cure, Siouxie & the Banshees e o PiL, só para mencionar alguns, também passaram por aqui. Além disso, os grupos nacionais, especialmente os de São Paulo, estavam em evidência e, nas rádios e nos programas de TV, era relativamente fácil encontrar coisas interessantes rolando. Então, não é surpresa que o disco epônimo do Echo tivesse sido lançado no país e, mais, que eu o recebesse como presente em uma festa do colégio.

Este álbum não é, definitivamente, o melhor do Echo & the Bunnymen. Pessoalmente, não os acho uma banda do primeiro escalão, apesar de gostar de uma coisa ou outra em sua discografia; deles, o que eu mais ouvi, de longe, é o pirata On strike (or songs the Lord taught us), de 1985, uma compilação de covers que os caras tocavam nos shows: “Run run run” e “There she goes again” (ambas do Velvet Underground), “Friction” (Television), “It’s all over now, baby blue” (Bob Dylan), “In the midnight hour” (Wilson Pickett), “Soul Kitchen” (Doors) e”Paint it black” (Stones), entre outras. Esse sim um registro sensacional. Quanto ao disco em questão, muitos torceram o nariz. Os fãs hardcore do Echo devem preferir Ocean rain ou Porcupine e têm toda razão – hoje, olhando em perspectiva, são, sem dúvida, gravações superiores. E, além disso, em 1987, a banda não passava por seu melhor momento. Big Mac bebia demais e tinha ataques de estrelismo. Pattinson estava mais interessado em velejar. De Freitas havia se mudado para Nova Orleans e avisado que não pegaria mais nas baquetas do combo. A estória de sempre; decadência, certo? Então, afinal, o que um disco como este tem a revelar?

Primeiro, é de se notar que se trata de uma coleção de belíssimas canções – “Lips like sugar”, “The game”, “Bedbugs and ballyhoo”, “Bombers bay”, “All my life” e”Lost and found”, até hoje, me vêm à cabeça, ainda que eu não as ouça há décadas. São algumas das músicas mais bonitas do catálogo do Echo. Melodiosas, mas não propriamente fáceis. E eu acho relevante considerar que, tecnicamente, Will Sergeant, Les Pattinson, Ian McCulloch e Pete de Freitas não sejam exatamente grandes músicos, embora tenham sido capazes de fazer coisas assim. Para mim, a excelência criativa dos caras se deve aos ouvidos afiados, à intuição desenvolvida ao longo de anos ouvindo bons discos e artistas e, sem dúvida, ao fato de estarem inseridos em uma cena musical igualmente bem criada e informada. Some a isso tudo boas doses de despeito juvenil, álcool e outros aditivos e, talvez, possa se alcançar um resultado desse nível.

Mas, veja, eu havia dito que não se tratava do melhor do Echo e, mesmo assim, considero-o importante na minha formação. Por que? Porque esse disco me ensinou que não bastam boas faixas para se fazer uma grande obra. Aprendi algo importante aqui. Um álbum verdadeiramente relevante tem de ter algo a mais – eu não saberia dizer, com clareza, o que é esse plus, mas eu sei que ele existe e que não é produto do acaso. Muita gente grava muita coisa. Muita coisa boa nem chega a ver a luz do sol. Mas, naqueles casos raros, a confluência de bons fatores faz com que surjam petardos reais e que, de algum modo, eles sejam ouvidos por nós. O que falta em “Echo & the Bunnymen”? Uma boa banda? Não, à época, Big Mac e os coelhinhos estavam na ponta dos cascos. Não é, como dito, um problema de repertório. O suspeito usual, portanto, é a produção. Pois bem, parece-me que o pecado cometido por Laurie Latham é ter “achatado” a espontaneidade da banda. Para alguns, talvez o problema estivesse no excesso de teclados. Discordo. Penso que a questão está mais na “limpeza” das faixas, na falta de ambiência das guitarras, no eco exagerado das peles da bateria. Não há ruídos, cliques, efeitos sonoros inesperados. É um registro correto e seguro, nada mais. No alarms and no suprises.

Claro que outros discos me ensinaram a mesma lição, alguns de maneira ainda mais clara. Mas foi mais ou menos nesse período que eu comecei a compreender que existiam álbuns bons e ruins, melhores e piores, superiores e inferiores.

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