Rasteiras · Rock

Duas vagas lembranças

Mexendo em meus vinis empoeirados anteontem, encontrei dois álbuns que há muito não ouço: Déja Vu (Atlantic Records, 1970), de Crosby, Stills, Nash & Young, e Sweet Soul Music (Stax-Volt/Atlantic Records, 1967), de Arthur Conley. O primeiro, country-folk rock de trincheira, não é das coisas que mais gosto, mas é, sem dúvida, um bom disco. As canções são bastante simples, mas os arranjos rebuscados parecem lhe conferir uma espécie de “nobreza” artística. O aspecto mais evidente disso é a vocalização – afinal, é o que deu fama ao grupo. Por vezes, as guitarras e teclados – como na faixa de abertura, “Carry on”, ou em “Almost cut my hair” – conduzem os ouvidos para desvios no caminho. Não é muito difícil compreender que música caipira, por definição, não é algo muito sofisticado – e isso não é, de modo algum, um demérito (ao menos, não imediatamente). Então, nesse sentido, o que quero dizer é que esse álbum mostra bem como, às vezes, soluções inventivas podem fazer de músicas medianas algo além – especialmente nas baladas viajandonas.

No mais, o achado me fez lembrar que eu, definitivamente, não sou fã de country. Mesmo em pequenas pitadas. Creio que seja isto que me impede de, por exemplo, gostar mais do Arthur Lee, dos Byrds ou do Buffalo Springfield, gente que tem trabalhos consistentes e que eu já até ouvi bastante (principalmente o Forever Changes, do Love). De tod modo, CSNY me remete à minha pós-adolescência, me traz de volta o início dos anos 1990, quando me mudei para São Paulo: era uma época em que eu estava tentando ampliar meu paladar, tentando me distanciar um pouco das coisas mod e do soul/R&B; era o tempo em que eu freqüentava a finada loja Golden Hits, dirigida pelo Tangerino, que ficava na Matias Aires, entre a Frei Caneca e a Augusta. Déja vu.

Arthur Conley - Sweet Soul Music (Atco, 1967)Já o hard soul de Arthur Conley é bem legal, mas, cara, não consigo deixar de pensar em Sam & Dave quando o ouço. Bem verdade que Conley havia sido “adotado” por Otis Redding (homenageado na versão de “Wholesale love”) e pelo pessoal da Stax-Volt – então, é de se esperar que ele soasse na linha do duo. O que me atrai nesse tipo de soul é que as coisas são resolvidas no power trio, no bom e velho combinado guitarra-baixo-bateria, com o órgão pontuando e os metais em brasa – bem distante das orquestrações melodiosas (e melosas) dos clássicos da Motown. No disco, é fácil notar uma pitada de Wilson Pickett acolá, um pouquinho de Solomon Burke (vide a bela versão para “I can’t stop”) no meio e doses generosas de suíngue cru. Mais que suficiente para se divertir – é possível tocar uma festa inteira só com o álbum -, mas fica claro que ele é do segundo escalão. Este disco eu comprei na Ventania, lá nas Grandes Galerias, junto com o Fábio Pedroso, na época em que eu ainda tocava com os Ultimates, idos de 1991. 18 anos incompletos e ouvindo soul music de Memphis, de 1967; onde eu estava com a cabeça? Seja lá onde fosse, ainda bem que foi assim.

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