1973 · Rock

[1973] My generation

Revista Life, 01.12.1941
Revista Life, 01.12.1941

Ok, esse é um post particularmente difícil. A ideia de tentar mapear o consumidor médio de rock nos EUA e na Grã-Bretanha é importante nesse projeto, mas, assumo logo, está muito além das minhas capacidades. O que posso fazer, então, é esboçar alguns palpites e, a partir dos chutes, apontar para uma espécie de “fim do sonho”, que ensejará uma grande transformação na indústria e abrirá as portas para o surgimento do punk.

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Parto da hipótese, nem sempre evidente, de que o gosto pessoal não é um dado natural singular. Nesse sentido, suponho que seja essencial observar o cenário em que o jovem consumidor de rock está inserido para, então, compreender um pouco melhor o que está acontecendo no gênero. Aqui, trata-se de um movimento perigoso, posto que não é possível afirmar, com precisão, até que ponto o consumo de música determina sua produção, já que a utilidade das coisas, embora necessária, no mais das vezes não é o fator primordial para a atividade da indústria. Ainda, também é muito obscura a relação entre as transformações artísticas e as exigências econômicas. Por isso, quando afirmo, nesse conjunto de posts sobre 1973, que esse momento histórico é decisivo, estou sempre preso a essas incertezas. Afinal, o que é a indústria e o que é o rock? Há rock sem indústria? O que a música tem a ver com a economia, afinal?

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Dada a verve empiricista britânica, os norte-americanos são fanáticos por números. Números indicam muitas coisas, mas, a bem da verdade, explicam muito pouco. Em 1973, existem pouco mais de 200.000.000 de habitantes nos EUA e 56.000.000 na Grã-Bretanha. À época, nas duas localidades, a faixa etária que vai dos 15 aos 60 anos concentra mais de 60% da população. A renda média per capita nos EUA era quase US$7.000,00 (em montante atual), praticamente o dobro da britânica. Ingressos para a tournée de 1973 de Emerson, Lake & Palmer custavam, em média, US$25,00 (em valor de hoje). Que tudo isso quer dizer? Quer dizer que as coisas são muito mais complexas que esses indicativos.

Suponho que, de saída, seja preciso ter em conta que estou falando de um momento em que os chamados baby-boomers passaram a ser uma “geração” propriamente dita. Isso não pode ser medido imediatamente em números – é um dado cultural e não propriamente demográfico. Quando a revista Life chamou a atenção para as altas taxas de natalidade nos EUA, não estava realizando um estudo sociológico, embora tenha provocado o interesse de muita gente boa e, assim, ter promovido, de algum modo, pesquisas sérias sobre o tema. Geralmente, a expressão se refere àqueles que nasceram entre a segunda metade dos anos 1940 e a primeira metade dos anos 1960, mas isso só pode ser inicialmente entendido a partir da consideração sobre o comportamento dessa geração. A “individualização”, o envolvimento “cidadão” nas causas coletivas, a “desmistificação” das “altas” manifestações artísticas e a elevação do consumo ao estatuto de “estilo de vida” são apenas alguns exemplos marcantes da maneira de agir das pessoas nascidas nesse período. Esse fenômeno não é restrito à América do Norte e à Europa, mas foi por lá que o rock se tornou uma das suas formas culturais mais emblemáticas. No campo da música popular, o generation gap – que, por vias tortas, ao longo do tempo, foi se transformando em uma disputa entre “liberais” e “conservadores” – podia ser ouvido a partir dos amplificadores valvulados dos herois da guitarra. Mas a sinuosidade roqueira não era apenas a maneira pela qual esse conflito intergeracional aparecia: o rock gravado era uma das mercadorias preferidas no campo do entretenimento e, ancorado no crescente volume de vendas, tornou-se elemento icônico, característico de certos estilos de vida daquela juventude. Por essa razão, sua ligação com a moda, com os seriados de TV, com o cinema, com a baixa literatura e tantas outras manifestações do que se convencionou a chamar de “cultura popular” tornou-se parte essencial de seu desenvolvimento como gênero. Com isto, quero dizer que, em seu processo de “amadurecimento”, o rock incorporou todos esses elementos e, circa 1973, somente poderia ser realmente compreendido se se considerasse os aspectos não-musicais que lhe diziam respeito.

É nesse sentido que é fundamental observar sob quais condições essa geração foi forjada. Já falei um pouco sobre isso no post sobre as origens industriais do rock. Até 1973, o desenvolvimento econômico do lado ocidental da Guerra Fria foi capaz de dar um ambiente propício ao desenvolvimento do rock. Chamo isso de “desenvolvimento positivo”. Ocorre que, a partir daquele momento, o gênero passou a desenvolver-se “negativamente”. Em outras palavras, ocorreram transformações importantes porque, de um lado, o cenário social passou a impor dificuldades para a indústria e para os artistas. E, de outro, o próprio aspecto “positivo” havia alcançado um certo ápice – nesse caso, talvez se tenha chegado aos próprios limites artísticos, dada a simplicidade estrutural que lhe é inerente. No que diz respeito a isto, explorarei em o assunto em outro post. Contudo, no que se refere ao primeiro ponto, penso que dois fatos da época são essenciais.

Em primeiro lugar, o cenário político estava conturbado nos EUA: havia o problema da guerra no Vietnã, que já era um baita fantasma na vida americana – não apenas o conflito em si, mas suas implicações na relação entre URSS e EUA. Os jovens, muito justificadamente, temiam o serviço militar, assim como parte dos pais, que tinham vivido a Grande Guerra. Havia um disputado debate acerca do conflito, embora a principal dúvida – como sair por cima? – por vezes ofuscasse a discussão sobre as motivações da guerra. A versão do hino que Jimi Hendrix fizera em Woodstock estava, de certa forma, superada, ofuscada pelos caixões provenientes do leste. Mas não só isso: por exemplo, as primeiras investigações sobre Watergate começavam a pulular; o aborto fora legalizado após uma gigantesca batalha nos tribunais; o sonho espacial estava em pleno declínio (a última missão lunar ocorrera em 1972). Em segundo e paralelamente, o primeiro choque internacional do petróleo impactou diretamente o consumo – as taxas de inflação se elevaram tanto nos EUA (6,16%) quanto na Grã-Bretanha (8,4%) -, incluindo, claro, o entretenimento. As entradas para o cinema, por exemplo, ficaram imediatamente mais caras à época do que hoje – embora, claro, isso não se deva exclusivamente ao petróleo (para início de conversa, a estrutura de produção e de distribuição de filmes era completamente diferente). O choque afetou, nos dois lados do Atlântico, o emprego jovem – algo decisivo, especialmente na Inglaterra, para o surgimento do punk.

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Enfim, como dito, são apenas apontamentos. Mas uma coisa é certa: no rock, a partir de 1973, o que era sonho se transformou em cinismo.

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