Rasteiras · Rock

De volta às raízes

Vivendo e (não) aprendendo.
Vivendo e (não) aprendendo.

Going back home (Chess, 2014) é o nome do álbum que vem me entretendo nos últimos dias. Não é a salvação do universo, mas talvez seja a da lavoura (a de 2014, pelo menos). Por outro lado, eu sou super suspeito para falar qualquer nota sobre o petardo, posto que nunca escondi minha admiração por Wilko Johnson (e o Dr. Feelgood) e, muito menos, por Roger Daltrey (e o Who, o preferido da casa, desde sempre).

Johnson é um dos meus cinco guitarristas favoritos. Seu estilo é único, sua sonoridade é marcante. Ele é um homem de Telecaster e de unhas, que prefere acordes e ritmo; é um sujeito que valoriza a canção que está tocando. Não é um guitarrista da estirpe americana, não soa como Buddy Guy ou Jimi Hendrix, mas sua música é blues. É blues, mas é branco; na verdade, é mais para o punk, mas, ainda assim, está perfeitamente na tradição do rock’n’roll.  Por sua vez, Daltrey é, notoriamente, um dos maiores vocalistas de todos os tempos.

Em janeiro de 2013, Wilko recebeu o diagnóstico de câncer no pâncreas e, ante um prognóstico bastante desanimador, abriu mão de tratamento quimioterápico. Sentindo-se bem, programou uma última tournée pela Inglaterra e Japão, esperando morrer em outubro (como previsto pelos médicos). Entretanto, vivo e sem maiores problemas, registrou, em novembro passado, este álbum com Daltrey – ambos haviam se conhecido poucos anos atrás e vinham combinando uma parceria há algum tempo. O resultado foi um disco surpreendentemente bom, cuja sonoridade remete à urgência da situação – e isso é uma virtude.

wjrd02A escolha das faixas revela a intenção do projeto: é um registro final, uma espécie de auto-tributo. Aliás, deve ser ouvido como tal. Não há aqui qualquer tentativa de inovação, não há nenhum experimento em curso. Há, entretanto, o risco de olhar para o passado e buscar nele algum sentido, digamos, “total”. Apreciando as músicas, tive a nítida impressão de que Johnson busca mostrar uma espécie de síntese positiva de sua obra. E consegue. “Going back home”, “All through the city”, “Keep it out of sight” e “Sneaking suspicious” são canções do Dr. Feelgood. As demais, incluindo a versão para “Can you please crawl out your window” de Bob Dylan, são dos discos solo de Wilko. Todas têm mais de 30 anos de registro prévio. Os arranjos são os mesmos; até os solos são praticamente idênticos às gravações originais.

Going back home é uma ode ao pub rock, esse sub-gênero tipicamente inglês, que remete a uma forma bastante específica de se tocar blues. Trata-se do lamento do jovem branco working class e não do negro, de antepassados escravos. Suas origens remetem aos baby-boomers dos anos 1960, aos modernists; começou a ser sonoramente forjado com bandas como Johnny Kidd & the Pirates, Animals, Yardbirds e Rolling Stones. Firmou-se como formato no início dos anos 1970 e, sem qualquer dúvida, é um dos elementos do punk 1977. Daltrey conhece bem do riscado. Quando o Who ainda era High Numbers, o repertório era, basicamente, composto por standarts do R&B. Aliás, em várias faixas do álbum My generation, de 1965, Daltrey modula sua voz buscando emular a rouquidão dos vocalistas negros da América do Norte. Ao longo dos anos, com a maturidade, aquilo que era um simulacro ruim acabou se tornando elemento característico. Por isso, neste álbum – que alcançou o #2 das paradas britânicas -, sua voz soa natural, perfeitamente integrada com as canções de Johnson.

Objetivamente falando, este é um álbum parrudo: o repertório, como dito, é bom; a execução soa “ao vivo”, com frescor e espontaneidade; o som é denso e claro; e a produção de Dave Eringa é bastante simples, em um sentido eminemente positivo. A banda de apoio – os Blockheads – são corretos, na tradição do “R&B britânico”. A cozinha formada por Norman Watt-Roy e Dylan Rowe não suinga como os negões do outro lado do Atlântico, mas não perde nota e compasso – as linhas são rigorosamente retas e precisas, abrindo espaço para os acordes cortantes da Telecaster. A harmônica de Steve Weston faz o contraponto à voz de Daltrey tão bem quanto o piano excepcional de Mick Talbot (ex-Merton Parkas e ex-parceiro de Paul Weller no Style Council) faz à guitarra de Wilko. Destaques: a faixa-título, que Johnson compôs em parceria com seu ídolo Mick Green, “I keep it to myself” e “All through the city”. Impossível não lembrar, com muita saudade, de Lee Brilleaux. E, com essa atuação de Daltrey, minha expectativa cresce.

Veredito? Honesto, bom e simples – leva nota 7,5 e passa direto.

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