Rock

A hard day’s night

Pensando sobre o post do Arnaldo, lembrei-me de uma outra efeméride: os 40 anos de June 1, 1974, registro do concerto que reuniu Kevin Ayers, Nico, John Cale e Brian Eno.

June 1, 1974
June 1, 1974 (Island, 1974): ao vivo no Rainbow Theatre, em Londres.

Sobre o encontro, Brian Eno já havia alertado: essa coisa de supergrupo é perigosa, porque, no mais das vezes, o resultado é obtido pelo mínimo denominador comum. “Talento” é uma categoria deveras capciosa – ela indica uma qualidade, mas não oferece qualquer pista sobre sua origem ou o contexto em que acontece. Se a gente for levar um pouco mais a sério esse negócio, fica claro que são múltiplas as razões que levam um artista a criar algo verdadeiramente interessante. São diversos fatores e contingências; uma obra de arte elevada é quase um achado no acaso. Em se tratando de rock, onde as limitações e tosquices são ainda mais evidentes, fazer um bom disco é um acontecimento realmente raro. Para cada Sgt. Peppers há montanhas de esterco sonoro.

Em 1974, os quatro artistas estavam no topo da forma. Eno havia lançado o maravilhoso Here come the warm jets, Cale tinha parido o belíssimo Paris 1919; Nico e Ayers também atravessavam um período bastante proveitoso em suas carreiras. Eram, claro, artistas cult, ilustres desconhecidos do grande público. Foi Richard Williams quem articulou o encontro, viabilizando-o comercialmente pela Island Records. A companhia era, até aquele momento, especializada em reggae – tinha posto Bob Marley nas paradas britânicas e americanas -, mas estava disposta a arriscar em nomes “estranhos” e propostas artísticas mais “experimentais”. Como John Cale comentou à época, a gravadora estava tentando somar os públicos dos quatro e, assim, fazer do álbum também um sucesso de vendas; foi razoavelmente bem-sucedida nesse tocante, diga-se de passagem.

june2O fato é que Williams não estava, propriamente, apostando: havia sentido em reunir aquelas pessoas. Ayers, Nico e Cale eram artistas maduros e consolidados, vindo dos anos 1960. Eno tinha construído sua reputação com o Roxy Music e com as parcerias com gente como Robert Fripp. Em comum, todos mantinham uma saudável aversão pelo “fácil”, pela “fórmula”, pelo clichê: há, na música de cada um deles, um flerte com o risco, com o perigoso – tudo pode dar errado a qualquer momento e aquilo que já funcionou não deve ser simplesmente repetido. Por isso mesmo, o concerto realizado no Rainbow Theatre, em Londres, foi um acontecimento único.

Concordo com a relutância de Eno para com reuniões dessa estirpe, mas este não era e nunca foi um supergrupo: eram, afinal, quatro artistas diferentes. A meu  ver, o disco revela sua unidade precisamente na distinção. O que foi eternizado no vinil, para começo de conversa, foi a assimetria na seleção das faixas: duas de Eno, uma de Nico, uma de Cale e cinco de Kevin Ayers – que era, afinal, o headliner do evento. E, além disso, ainda que a instrumentação e a execução tenham sido até divididas entre eles, revelando pequenas e preciosas colaborações, cada canção tem a cara de seu dono: só para exemplificar, “The end” (cover dos Doors) só funciona com Nico, a excepcional “Heartbreak hotel” (versão para o sucesso de Elvis) é puro Cale, “May I” é a quintessência de Ayers e Eno é a força-motriz de “Driving me backwards”. Estranhamente, contudo, ouvido o registro do show, fica-se com a impressão de que há uma espécie de harmonia de propostas e sonoridades. Por exemplo, o ouvido nota, desde logo, que as guitarras são coadjuvantes em todas as faixas, mesmo quando os solos são inevitáveis (nas canções de Ayers, especialmente). E algo similar pode ser dito da bateria: ela funciona como instrumento de percussão realmente – quero dizer, ela não é apenas o beat, a pulsação, mas, aqui, aparece como floreio, como acentuação de passagens musicais. Não há, de modo geral, sons sobrando. Tudo é econômico e pensado e, mesmo sendo cerebral, o resultado soa espontâneo. Para mim, trata-se de um discaço. Só me parece haver um pequeno “porém”: não há grandes faixas, singularmente – nada aqui se assemelha a algo realmente memorável, único, irrepetível.

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Pensando bem, o supergrupo, na verdade, era a banda de apoio, os Soporifics: Robert Wyatt (ex-companheiro de Ayers no Soft Machine, que estava em vias de lançar o aclamado Rock bottom), Mike Oldfield (que acabara de experimentar o sucesso com Tubular bells) e John “Rabbitt” Bundrick (que tocara na formação final do Free e que, anos mais tarde, seria tecladista do Who).

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Descobri esse álbum há poucos anos, quando flertei brevemente com os sons de Canterbury. Foi um momento particularmente difícil: muito trabalho e pouca diversão tinham feito de mim um cara bobão. Águas turbulentas sob a ponte. Hoje, um cara feliz, enxergo a conexão entre momento ruim que atravessava e o interesse que nutri pela psicodelia e o progressivo.

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Enfim, concordo com Robert Christgau: “se é para existir art-rock, deus, que seja isso”.

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