Rasteiras · Rock

‘Ce tá pensando que ele é loki, bicho?

Arnaldo Baptista - Loki? (Phillips, 1974)
Arnaldo Baptista – Loki? (Phillips, 1974)

É pacífico afirmar que Loki? seja um dos melhores discos brasileiros de todos os tempos. Em minha opinião, é o melhor disco do rock brasileiro – primeiro porque é, de fato, uma obra sensacional e, segundo, por conta do nível da concorrência mesmo. Muito rapidamente, só para não dizer que não falei das flores, penso que o petardo tenha três qualidades fundamentais: 1) é direto, econômico, transparente e conciso (do ponto de vista da composição e dos arranjos, nada falta ou sobra; não há “truques” ou “efeitos especiais”; o artista “se mostra por inteiro”, sem medo de soar piegas ou pretensioso); 2) como obra, alcança plenamente os limites propostos (é rock, embora não tenha guitarras; é rock, embora tenha um sambinha aqui e um funk acolá; é rock, embora, tematicamente, as letras sejam “bolerões”); e 3) é, enfim, um todo unitário (as faixas se sustentam isoladamente e fazem sentido juntas). Isso tudo, claro, tem de ser, ainda, contextualizado na carreira que o artista desenvolveu – e, goste-se ou não, os Mutantes são os gênios da raça.

Bom, resolvidas essas questões, penso, por outro lado, que é preciso dizer o óbvio: o sujeito que criou essa maravilha que é Loki? está morto. Há muito, muito tempo. Veja, eu também acho legal e necessário incensar Arnaldo Dias Baptista sempre que se tiver a oportunidade. Mas o tapinha nas costas não pode significar nada mais que uma lembrança e um singelo reconhecimento. Tratá-lo, hoje, como se estivesse “em forma”, na ponta dos cascos, exalando a genialidade marcante dos idos de 1974, é uma grande babaquice ou um atestado de ingenuidade.

Loki? (contracapa)
Loki? (contracapa)

Ok, as comemorações dos 40 anos do álbum até fazem algum sentido – evidentemente, para aqueles que veem alguma graça em festa de aniversário. Contudo, a cobertura que a mídia vem dando à efeméride dá muito mais destaque ao Arnaldo que vive recluso em um sítio nas Gerais e que se dedica mais às, digamos, “artes plásticas” que aquele maluco que enfiava arpejos eruditos no piano honky tonky e que havia roubado uma estátua de um cemitério. São artistas muito diferentes, ainda que, de um ponto de vista “biológico”, trate-se da mesma pessoa. Ouvir o Arnaldo atual falar sobre suas memórias e impressões daqueles disco e época é legal e, até certa medida, importante, mas é preciso ter o distanciamento necessário para poder avaliar aquilo que é apenas afetivo do que é efetivamente plausível e historicamente verdadeiro. Não se deve tomar alguém por aquilo que ele pensa sobre si mesmo. Daí que muita gente boa, no mais das vezes, espera que o cara seja capaz de dar mostras daquele talento todo e, ante o esperável medo da frustração, acaba declarando genial aquilo que, na verdade, é patético. O que dizer, por exemplo, da participação de Arnaldo na versão de “Panis et circensis” perpetrada por Sean Lennon?

Para deixar claro: o Arnaldo de hoje ainda pode emocionar as pessoas e emular fagulhas por aí. Não é esse o ponto. Só acho que esperar mais que isso, no fundo, é um tremendo desrespeito com o próprio artista.

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