1973 · Rock

[1973] A criação do mainstream

Led Zeppelin, Atlanta (Georgia/EUA), 04.05.1973: 50.000 pagantes!

Os Rolling Stones estiveram em Düsseldorf há pouco menos de uma semana, tocando para mais de 45.000 pessoas. Essa notícia certamente não foi a principal manchete dos diários alemães do dia 20 de junho, embora, sem qualquer dúvida, seja algo extraordinário que um artista – especialmente uma banda de rock ativa há mais de 50 anos – seja capaz de levar tanta gente para um único evento. O fato é que, hoje, grupos como os Stones somente podem sair em tournée se os shows tiverem essa dimensão. E, com o fim da indústria do disco,  esse é o principal meio de se fazer dinheiro com o rock.

Foi há pouco mais de 41 anos, em 05 de maio de 1973, que o Led Zeppelin estabeleceu o “recorde mundial” de público em um espetáculo musical solo e pago. O show realizado em Tampa (Florida/EUA) reuniu mais de 56.500 pagantes, batendo o antigo “recorde” dos Beatles (no Shea Stadium, em 1965, para cerca de 55.500 pessoas). É claro que, ao longo dos anos, esses números foram suplantados por vários artistas, mas, em 1973, esse foi um acontecimento relevante. O ponto, contudo, não é o tamanho da audiência em um show isolado: o fundamental é notar que o Zep havia reunido 50.000 pessoas já na noite anterior, em Atlanta (Georgia/EUA). E, especialmente, que entre 04 de maio e 29 de julho de 1973, fizeram 35 shows, em 33 cidades diferentes, tocando para um total de mais de 500.000 pessoas – de modo similar, o Who, na “perna” norte-americana da tournée de lançamento de Quadrophenia, em 12 datas e 11 locais distintos, entre 20 de novembro e 06 de dezembro daquele ano, foi visto por cerca de 180.000 pagantes.

O que estava ocorrendo naquele momento, em minha modesta opinião, era que o rock estava alcançando sua maioridade estética e econômica. O mercado fonográfico, nesse momento, vivia dias de grande prosperidade (segundo a RIAA – Recording Industry Association of America, dos 10 discos mais vendidos nos EUA em todos os tempos, 6 são discos de rock e todos eles foram lançados nos anos 1970). O álbum era, definitivamente, o formato primordial nos principais mercados e os artistas criavam pensando especificamente nesse modelo. Nesse sentido, muitas experiências sonoras foram feitas, tanto do ponto de vista da estrutura musical quanto dos arranjos e gravações. Os mais pretensiosos criavam obras que, bem ou mal, eram conceituais: cada elemento tinha um papel em um todo unitário, não aleatório. Existiam sub-gêneros consolidados, apontando a saudável diversidade artística que marcava o período; no centro, o modelo “rock clássico”, que, assim como a psicodelia e o progressivo, propunha músicas mais longas e trabalhadas. É nessa toada que o concerto de rock passa a ser um evento também mais longo – isso para não falar da mística da “comunhão espiritual” entre as pessoas e do aspecto ritualístico que caracterizava a “experiência” (prontamente assumida por hordas de jovens “sociáveis” porque ajustados ou desajustados – dá quase no mesmo). Dos iniciais 15-30 minutos típicos da década anterior, nos anos 1970 os shows passaram a durar duas ou três horas. Ainda, o espetáculo envolvia o merchandise – surgem, por exemplo,  camisetas, chaveiros, bonés, libretos e bootlegs – e, claro, o fetichismo em torno do vinil, que ao longo dos anos tinha se tornado objeto de coleção e culto.

Existiam lojas de discos em praticamente todas as cidades médias e grandes. As rádios FM especializadas pululavam – no caso inglês, esse é um ponto importante e dissonante, desde que, na década de 1960, a BBC tinha se tornado a estação oficial -, eram donas de uma audiência absurda e realmente influiam de maneira determinante sobre o consumo de música gravada e dos shows das bandas. A TV tinha tomado a dianteira em relação ao cinema, que fora um grande propulsor do rock (já que fazia o papel de exportador dessa produção para o resto do mundo), e estava em vias de se tornar o principal veículo para vender discos (veja, na década seguinte, a explosão do videoclip). Na América do Norte e na Europa, publicações mantidas por jornalistas e amalucados aspirantes a intelectuais cultivavam leitores fieis e apaixonados. Havia, em 1973, um circuito pronto e maduro para que os shows passassem a ser, efetivamente, espetaculares.

Por outro lado, é preciso prestar muita atenção ao que estava acontecendo no aspecto tecnológico. A despeito da experiência obtida desde o festival Monterey Pop (1967) – no antológico filme de D. A. Pennebaker, é possível ver David Crosby rasgando elogios ao sistema de som criado por Abe Jacob para a ocasião -, passando por Woodstock (1969) e Isle of Wight (1970), a sonoplastia, até meados de 1972/3, era ainda um grande problema para as bandas mais populares da época. Até esse momento, a situação mais comum era que o contratante oferecesse o seu sistema de sonorização. Os artistas até levavam seus amplificadores, mas o som para a audiência era feito pelas casas. Isso, evidentemente, era um risco a ser considerado, já que ninguém realmente poderia prever como as coisas soariam até que o circo todo estivesse montado. As primeiras companhias especializadas – como a Heil Sound – estavam começando a operar e, à época, não havia muitas opções, mesmo para aluguel de equipamentos.

The Who (com mais de 20 toneladas de som e luz), Alice Cooper, Led Zeppelin e Grateful Dead (com o famoso “Wall of Sound”) foram alguns dos primeiros grupos a usar apenas o seu próprio sistema sonoro. No entanto, a operação havia se tornado bastante complexa: era preciso arcar com custos mais elevados e equipes mais numerosas. Isso, desde logo, levantava questões importantes: em primeiro lugar, nem todos os estabelecimentos eram capazes de receber bandas com equipamento próprio; era preciso planejar cuidadosamente os aspectos logísticos; a equação econômica era complicada, sendo necessário calcular quantidade de datas e o tamanho do público (o que, então, implicava aspectos promocionais e comerciais). Isso tudo tinha, ainda, de ser considerado a partir das vendas de discos e dos interesses da indústria. Não é difícil imaginar por quais razões o mercado de shows de rock esteve tão concentrado nos EUA por tanto tempo.

Para que o Zep percorresse os 670 km que separam Atlanta de Tampa, era necessário algo mais que ônibus e caminhões. O Starship – o Boeing particular alugado pela banda para a tournée de 1973 – era apenas mais um entre os diversos excessos que marcavam a vida na estrada. O “sistema” estava criado: dinheiro, groupies, drogas e deliquência (no mais das vezes, muito, mas muito ingênua) eram os elementos que, combinados nas mais diversas quantidades com um punhado de boas canções e discos, resultaram no que hoje poderia ser chamado de mainstream.

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