Rock

E, agora, Piketty?

Foi por meio do texto do Dave Carr que acabei esbarrando em um pequeno artigo escrito por Van Dyke Parks sobre o problema dos direitos autorais e a distribuição digital de música. Gostei bastante. Lembrei-me que, há uns dias, Rob Zombie, dentro de suas limitações, tentou criar um argumento em que o grunge seria culpado da atual hegemonia do rap: como as bandas dos anos 1990 assumiram uma postura “anti-rock”, rompendo com o stardom e a aura roqueira, os rappers ocuparam o espaço e se transformaram em estrelas; daí que, hoje, não dá para pensar em bandas de rock como headliners de grandes festivais. Mas, mesmo em decadência, os royalties ainda devem ser polpudos. Afinal, se não dá mais para Ringo e Parks comprarem casas com piscinas com o que recebem por uma canção, por essas plagas, Rodolfo e os Raimundos estão brigando, em praça pública.

A vida está difícil e confusa para muita gente.

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Segundo a IFPI, as vendas de música, no mercado mundial, experimentaram uma queda de quase 4%, alcançando US$15 bi em 2013. Um relatório do MIDiA Consulting, publicado em março passado, dá conta que, no ano passado, a participação dos artistas nesse total foi de 17% (ante a 14%, em 2000). Contudo, segundo o tal relatório, no ano passado, 77% da grana foi parar na mão de 1% dos artistas.

Vamos assumir que esses números estejam corretos ou bem próximos à realidade.

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É claro que a questão da mercantilização da música me interessa muito. Mas, nesse momento, o que me interessa são outras coisas, mais específicas: há uma relação entre o declínio da indústria fonográfica e o rock, como gênero? O rock “gravado” e o rock “ao vivo” são fenômenos diferentes? Por que o rock vem perdendo terreno no campo do entretenimento de massas nos mercados norte-americano e britânico?

Essas perguntas são bastante complexas e não podem ser respondidas imediatamente, mas é possível dar uns pitacos aqui e acolá. Em primeiro lugar, imagino que exista uma ligação bastante clara entre o surgimento do rock e o estabelecimento de uma indústria fonográfica nos EUA, no cenário pós-guerra. Musicalmente falando, a mistura entre o country e o blues, dois dos gêneros nativos mais populares por lá, resultou em um terceiro bastante palatável e reconhecível pela juventude, que era, ao mesmo tempo, rejeitável pelos pais e pelas pessoas mais conservadoras. Além disso, tratava-se de ritmo apropriado para dançar e que mexia com a libido e a imaginação dos teenie boppers. A expansão dos bens de consumo domésticos, entre os quais o rádio, a vitrola e a TV, no bojo do processo de universalização dos empregos “de escritório”, também é um componente importante. Nesse mesmo andor, há uma transformação que precisa ser estudada, que é a da passagem do piano para a música gravada nas casas da classe média. Seria impossível, aqui, dar a devida conta disso, mas penso que, como a estrutura de trabalho assalariado está intimamente ligada à educação das pessoas, a dinâmica da formação dos espíritos, neste caso, implica a decadência das partituras e a ascensão da audição passiva (há, por certo, mediações muito importantes que não estão sendo tocadas neste post, mas o argumento geral é esse).

Em segundo lugar, creio que a importância que a música gravada assumiu na vida das pessoas favoreceu imensamente o formato “disco”, como manifestação própria do período em que o rock foi claramente o principal gênero de música popular nos EUA e na Grã-Bretanha (algo entre 1965-1975). Os álbuns passaram a ser mais importantes que os singles não apenas em termos comerciais, mas, sobretudo, como expressão artística. Esse auge estético, a meu ver, consolidou o rock como um dos elementos culturais mais relevantes do século XX. Então, enquanto as vendas permitiram, grandes clássicos foram forjados. [Mas isso tem de ser considerado em termos de totalidade (porque, de uma perspectiva singular, alguns discos excelentes foram fracassos comerciais retumbantes)] A decadência global da indústria do disco, a meu ver, impacta diretamente nessa forma de manifestação estética. Quando a prioridade volta a ser o single – e isso é o que vem acontecendo especialmente após a internet ter se consolidado como ambiente próprio para a distribuição de música -, o rock entra em declínio. Logo, a estrutura de produção que havia sido forjada, ao longo dos anos dourados, para criar e comercializar esse tipo de música entra em colapso.

Por outro lado, a decadência da música “aprisionada em um formato físico” corresponde à ascensão da “música-espetáculo”. Os shows têm sido cada vez maiores, privilegiando o caráter de “experiência”. Jogo de luzes, coreografias elaboradas, figurinos sofisticados e efeitos especiais podem funcionar para certas bandas, mas, no todo, são inapropriadas para a maior parte dos roqueiros. Além disso, apenas grandes artistas podem movimentar grandes estruturas, de maneira que a concentração de grana em um pequeno círculo é quase inevitável. A disseminação de celulares e dispositivos portáteis de custo razoavelmente baixo, bem como o barateamento do provimento de acesso, empoderou as redes sociais e os sites de streaming de áudio e de vídeo – isso para não falar em segmentação (pense, por exemplo, na guerra de audiência entre o cabo e a TV aberta). Novos mercados para artistas major foram sedimentados, embora os menores possam e devam pegar carona nas novas picadas abertas. É importante, contudo, relevar que a música, nesses espetáculos, é apenas um dos componentes (embora possa ser um dos principais). A existência de um circuito mundial de festivais é um indício importante desse momento.

Por derradeiro, a aura roqueira, com a decadência da indústria fonográfica, perdeu espaço midiático. O cinema, os seriados de televisão, os esportes e os quadrinhos – para citar apenas alguns exemplos – passaram a ser muito mais importantes na constituição de “modelos” de comportamento. Além disso, há um “envelhecimento” do roqueiro: aos olhos das novas gerações, não apenas a música, os instrumentos e a pose ficaram datados mas, sobretudo, os “valores”. Nem me refiro ao flower-power ou à “contestação” genérica, mas mesmo um certo “nihilismo roqueiro” perdeu espaço para um, digamos, “nihilismo digital”. O punk foi ultrapassado pelo cyberpunk e não se pode dizer que este seja uma “releitura” ou, pior, uma “evolução” daquele. O rock embalou as frustrações de muito moleque desajustado, mas, hoje, os jogos eletrônicos, por exemplo, cumprem bem esse papel.

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Jovens que não querem pagar por música são os mesmos dispostos a pagar por uma “experiência”. O diabo é que, na tal da “experiência”, a música gravada não é um fim.

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