Blablablá

Devil in your eyes

No início deste ano, enquanto me esbaldava nos últimos dias de recesso, pus para rodar uma coletânea do Them, antiga banda de Van Morrison, totalmente por acaso. As faixas foram sendo tocadas, disputando minha atenção com e-mails e papeis variados, até que, após a versão de “Richard Cory” (escrita por Paul Simon), a curiosa progressão de baixo e celesta capturou minha atenção. Já havia ouvido “Devil in your eyes” antes, mas nunca tinha prestado muita atenção nela.

There’s just one place where I feel safe
And you know where it is, babe
You know where it is, babe
That’s down below
There’s just one place that I call home
And you’ve got the key to it, babe
You’ve got the key to it, babe
That’s down below

Algo nela havia me encantado, dessa vez. Fiquei curioso. Lendo o encarte, descobri que tinha sido escrita por Bert Berns e publicada em 1965, por Don Kirshner. Isso explicava boa parte da atração que a canção passara a exercer sobre mim: Berns foi, em minha modesta opinião, um dos maiores compositores pop da história, figurando ao lado de gente como Burt Bacharach e Leiber & Stoller. Em meus devaneios juvenis, costumava pensar que, se era para ser assalariado, que eu trabalhasse, então, no Brill Building, em Nova Iorque (que hoje está caindo aos pedaços). Aquilo, efetivamente, era uma oficina de sucessos: um prédio onde compositores, músicos, empresários e editores trabalhavam concentrados na busca do Graal pop, a peça perfeita, que seria um ultra hit e, ao mesmo tempo, um exemplar de raríssima qualidade musical. [Se você engoliu a metáfora lamentável, digamos que Berns seria tipo o José de Arimateia da parada: o cara que começou a peregrinação rumo ao pop perfeito.] Nos idos da década de 1960, enquanto o disco ainda não havia passado por sua revolução industrial, o Brill Building era a meca (ops!…) do artesanato pop, onde foram gestados grandes nomes (como as Ronettes, os Isley BrothersFrankie Valli & the Four Seasons e Ben E. King) e alguns dos maiores êxitos comerciais de todos os tempos.

“Devil in your eyes” era mais uma das pepitas saídas do edifício, mas, certamente, não era um sucesso. Dispus-me a pesquisar minha pequena coleção e qual não foi minha surpresa ao encontrar pelo menos outras três versões curiosas da mesma canção: como faixa bônus na reedição de The midnight mover, de Wilson Pickett; como extra em Solar fire, disco de 1973 de Manfred Mann’s Earth Band; e em uma mega coletânea do Nazz, The fungo bats sessions.

They call it hell, but I must say
It feels like heaven to me, babe
It can’t be that evil to my soul
‘cause I just fell for you
and it feels good
I want that devil in your eyes
Show me the gate
I want that devil in your eyes

Li, não me lembro onde (mas talvez tenha sido algo escrito por Joe Carducci), que “Devil in your eyes” foi gravada por mais de 60 artistas diferentes e – isso é verdadeiramente impressionante – que nunca foi um “lado A”: foi, nas mais de 60 vezes, um filler desimportante, um “lado B”; nessa condição de “carona”, chegou ao topo das paradas 7 vezes, em singles diferentes, entre 1965 e 1971. Nunca um insucesso foi tão bem sucedido!

Foi então que comecei a perceber que “Devil in your eyes” era um tipo diferente de canção. Caramba, se fosse uma reles musiqueta pop inofensiva, inodora, inexpressiva, por quê raios teria sido tão constantemente gravada? Claro que a mão de um Don Kirshner devia pesar. Mas eu sabia, intuitivamente, que esse fator não era determinante para que a canção tivesse passado por tanta gente boa. Definitivamente, era uma coisa maior; aliás, parecia que era algo gigantesco. A cada audição, sentia o coração apertar; se a ouvisse três ou quatro vezes seguidas, gotículas de suor formavam-se em meu fronte.

Fodeu: eu estava obcecado. Durante dias, ouvi-a insistentemente, mesmo durante o banho ou as refeições. O ano letivo começara e eu estava, uma vez mais, na sala de aula. Enquanto lecionava, “Devil in your eyes” ficava “tocando” em meu pensamento e – mãos nos bolsos – meus dedos batucavam sua métrica. Recorrentemente, em meus sonhos, eu voltava a empunhar uma guitarra em um palco e me via tocando-a nos mais diversos tons e arranjos. Mas, como acontece comigo no mais das vezes, toda aquela obsessão não era nem um pouco ruim. Não me sentia mal e nem estava ficando louco; ao contrário, ondas de prazer me cortavam o corpo toda vez que me concentrava na canção.

Há coisa de dois meses, comecei a querer descobrir o que estava acontecendo. Como era possível que uma música provocasse em mim tantas sensações? Inicialmente, procurei racionalizar a experiência. Pensei: “o que me fisga, em primeiro lugar?”. Conclui, então, que me sentia particularmente extasiado com a sinuosidade da melodia. Era uma progressão que ia de uma oitava a outra, passando por dois acidentes, em dois compassos ternários simples, de 3×8, partindo de F#. A harmonia dependia do arranjo de cada versão, mas em linhas gerais, era baseada em acordes suspensos que regrediam, em B, e era aí que a mágica acontecia: notas “subiam” e “desciam” ao mesmo tempo e, em determinados cruzamentos, o efeito era belíssimo. Demorou uns dias, mas acabei entendendo o que ocorria: em termos teóricos, uma audição mais descuidada apontaria para o modo mixolídio, mas, com o ouvido mais “temperado”, notava-se que, na verdade, era lócrio. Lócrio? Sim, é o que você acabou de ler: L-Ó-C-R-I-O! O que ocorria era que primeira nota da progressão era, na verdade, a antepenúltima. Assim, o que, em um primeiro momento, parecia ser T-T-st-T-T-st-T era, quando ouvida na totalidade, circularmente, st-T-T-st-T-T-T! Eis a chave do impacto monumental! Eis o Graal!

They call it hell, but if it’s so
Devil is not down below
It’s in you, it’s in me, don’t we know?

No momento em que consegui compreender tudo isso, também me ficou mais claro o que acontecia com “Devil in your eyes” e a razão fundamental para o seu insucesso. Ela é uma espécie de música para músicos, algo para iniciados. Sua beleza só existe para quem se interessa por composições e arranjos musicais e, mesmo assim, apenas para os que apreciam essas coisas especificamente no formato popular anglo-americano. Para o ouvido despretensioso, era e é uma canção ordinária. Assim, para um artista menor, interessado sobretudo nas camas da fama, ela foi um filler, uma obrigação contratual imposta por empresários como Dick James e quetais. Mas, para gente que se importava com o rock, como os mencionados Van Morrison, Prescott Dixon e Todd Rundgren (que a gravou com o Nazz), “Devil in your eyes” era uma descoberta e uma reverência viva e marcante à música.

*

De súbito, deixei a canção de lado. A descoberta fora profanação. O diabo não estava mais em meus olhos.

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