Rock

Nota sobre as origens industriais do rock

Não, esse post não é sobre esquisitices germânicas.

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Nos tempos heroicos em que o rock começava a tomar a dianteira na música popular anglofônica, os hits eram realmente fabricados. Hoje, passados sessenta anos, é muito difícil deixar de lado um certo romantismo e abrir trilhas mais objetivas na aura daquele momento. É preciso reconhecer que havia uma certa inocência na busca pela fórmula do sucesso, especialmente porque todo o processo foi construído a partir da experiência, da “tentativa e erro”. Quero dizer, era possível, àquela altura, criar um grande hit de maneira “autêntica”, porque se tratava de algo novo, de um esforço inédito, cujas consequências ninguém poderia prever com exatidão. Era o tempo em que se podia cortar um acetato, correr para a estação de rádio e fazer uma fagulha aparecer do nada. Havia umas poucas mediações separando o artista e o público. O que os norte-americanos fizeram naqueles dez anos depois do final da Guerra foi montar a primeira estrutura perene para a produção de música jovem no mundo. Havia, claro, uma certa tradição vinda dos dance halls, do jazz radiofônico das big bands e das primeiras cantoras, além do cinema. Mas o fato novo era o vinil, o compacto de 7″, rodando a 45 rpm. Havia o decisivo impacto da reconstrução da vida ocidental – e vale acrescentar que isso não se restringe ao “progresso” nas sociedades alinhadas com o capitalismo ianque. Ao lado das variáveis econômicas mais evidentes, a equação também envolve baby boomers, propaganda ideológica, meios de difusão de massa e ascensão social das faixas menos favorecidas. Envolve, sobretudo, o problema racial nos EUA: por exemplo, “Ain’t that a shame”, de Fats Domino, estourou com Pat Boone, assim como Elvis tornou “Tutti Frutti“, de Little Richard, mundialmente famosa.

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Experimente ouvir os compactos de Chuck Berry: o ouvido mais surdo há de notar que a mesma música foi gravada em versões diferentes (tome, por exemplo, “No particular place to go” e “School day“, embora lançadas comercialmente com uma diferença de 7 anos). Detratores logo apontam, orgulhosamente, a “pobreza” musical do rock. Três acordes, doze compassos e wham bam thank you man! Os temas explorados nas letras são sempre os mesmos – sexo e agruras adolescentes, por vezes envolvendo carros e bailes. Isso para não falar na instrumentação patética, que requer que, para bem executar uma canção no estilo, desaprenda-se o básico de qualquer instrumento. Esse blablablá manjado é parcialmente verdadeiro, assim como também é parcialmente verdadeiro afirmar uma certa obtusidade essencial daqueles que gostam dessa música. Primeiro, porque é possível variar bastante dentro dos limites, ainda que as combinações resultantes não sejam tão sofisticadas como as dodecafônicas, e, para cada mil Agatha Christie, acaba aparecendo um Conan Doyle. O que não me parece legítimo é querer um discurso sobre a qualidade musical do rock sem que se considere mediações importantíssimas. Não me pareceria válido julgar a obra Stravinsky pelo impacto que a “Sagração” causa entre os apreciadores de pole dance. Segundo – e mais importante -, o rock não pode ser corretamente compreendido senão naquela estrutura industrial que lhe permitiu se firmar como o estilo de música mais popular nos anos 1950/60/70 nos EUA e na Inglaterra.

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Não é mero acidente que o formato “banda” tenha se tornado popular nos anos 1960, a partir da invasão britânica. O rock estava “morto” na América desde que Elvis se alistara no exército. Mas aqueles compactos atravessaram o Atlântico e foram percebidos pelos jovens ingleses da classe trabalhadora. Entre 1960 e 1963, centenas de grupos já estavam ativos na ilha. A música mecânica ainda era insuficientemente desenvolvida por lá e não havia uma estrutura adequada para celebrizar artistas atraentes para os adolescentes. Veja, Dick Rowe entrou para a história como homem que rejeitou os Beatles: preferiu Brian Pole & the Tremeloes por razões logísticas.

Nos EUA, contudo, os primeiros grandes nomes do rock eram artistas solo. Isso porque o processo de criação de um sucesso estava baseado na premissa de que era necessário lapidar um diamante bruto. Descoberto um “talento”, era necessário aparelhá-lo com uma boa aparência, um bom grupo de músicos acompanhantes e um bom time de compositores. Gravados dois ou três takes passáveis de um potencial hit, era necessário correr os acetatos pelas rádios e colocar o artista em uma caravana de shows – não havia um circuito, propriamente; o que existia, no mais das vezes, eram palcos mambembes em feiras agrícolas, nas pequenas localidades, ou teatros, nas grandes cidades. O papel do artista era promover o compacto; ainda não havia o videoclipe. Tocava-se por 15 minutos, em duas ou três sessões diárias. Esse esquema circense permitiu a conquista do norte e do sul, já que, no leste e no oeste, a TV foi bem mais determinante. Os artistas assinavam pactos com diabos brancos, gente como Alan Freed, um dos pioneiros do jabá, e Tom Parker, o empresário de Elvis.

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O rock, como gênero musical, nasceu de forma indissociável com o vinil. Não é à toa que, com o fim da indústria do disco, artistas e fãs estejam batendo cabeça. Long live rock!

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2 comentários em “Nota sobre as origens industriais do rock

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