Rock

Seguindo o coelho branco

Estava escrevendo sobre assuntos muito mais sérios e relevantes – “Lady Day”, de Lou Reed, e os fabulosos álbuns “Paris 1919”, de John Cale, e “Here come the warm jets”, de Brian Eno – quando, de bobeira, uma questão me surgiu: afinal, o que Jack White quer provar?

Tudo é épico, tudo é hip: toda essa marra é mainstream do-it-yourself. Nos tempos de guerrilha, esse tipo de atitude seria facilmente taxado de poser. E, embora seja um argumento rasteiro, não se pode esquecer que é bem mais fácil fazer a coisa acontecer após “Seven nation army”: só um rockstar pode cantar que a working class hero is something to be e ainda soar autêntico.

Eu entendo e, dependendo do dia, posso até aceitar o raciocínio em defesa do tal Record Store Day. Ora, também tenho eu minha pequena coleção de vinis e CD’s e, sim, aprendi muita coisa em lojas de discos – não vou cair na babaquice de dizer que esses lugares ajudaram a “moldar o meu caráter”, mas, certamente, descobri por lá mais que bobagens sobre artistas e canções. E, de mais a mais, até certos limites, não vejo nenhum problema em considerar álbuns e singles objetos bacanas, que têm lá seu encanto próprio. Jack White, antes de músico e estrela do jet set internacional, é, sem dúvida, um aficcionado. Imagino que muita gente – eu, inclusive – se conecte com o sujeito primeiro por esse aspecto (o amor ao rock) e depois (em alguns casos, beeeem depois) pela música que ele faz. Como o cara, sou um apaixonado pelas raízes negras do rock: boa parte do que ouvi na vida está relacionada com o blues, o R&B e a soul music. [E olhando agora para meus discos, noto que mais de um quarto deles se enquadra nesses gêneros]. Mas nunca fui fã dos White Stripes ou dos Racounters, embora considere muito interessante como essas influências aparecem no som dessas bandas: não é algo propriamente reverencial e o uso que fazem das sonoridades permite explorar linhas melódicas e padrões musicais diferentes. “Lazaretto”, a nova música de Jack, encaixa-se nesse raciocínio; os elementos (“clássicos” e “neoclássicos”: introdução funkeada, groove, batida esperta, flerte com o rap, guitarras realmente elétricas, feedback, solo de viola country) são arranjados de uma tal maneira que resultam em algo novo, mas que está claramente dialogando com a tradição. Afinal, como Jack berra ao microfone, my veins are blue and connected/and every single bone in my brain is electric (e, quando menciono “tradição”, também aponto para o fato biológico de que cérebros humanos não possuem ossos).

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Sobre o vídeo? Bobo, exibicionista, apropriado para impressionar gente cujos principais problemas são a acne e os pelos na mão. Revelador quanto à obsessão americana pela competição. E, para não dizer que não falei das flores: Blues Brothers, vá lá, mas CHiP’s? Sério, Jack?