Rock

Estranhos e desajustados

Passei os últimos dias namorando a discografia dos Kinks, especialmente a dos anos 1970. Embora nunca tenha deixado de ouvi-los completamente, fazia algum tempo que não me envolvia com sua música. Sempre que volto a seus discos, lembro-me de Sandro Garcia, do Continental Combo, que também passa por essas fases de kinkmania de quando em quando.

O grupo dos irmãos Davies foi fundamental na minha formação. Com eles, aprendi muito sobre sons de guitarra e, especialmente, sobre como as letras de uma canção podem ser importantes no rock. Quando me mudei para São Paulo, no início da década de 1990, e comecei a frequentar sebos e lojas de vinis usados, consegui os seis primeiros discos da banda e não seria exagero dizer que gastei uma dúzia de agulhas ouvindo repetidamente The Kinks (1964), You really got me (1965), Kinda Kinks (1965), The Kink Kontroversy (1965), Face to face (1966) e Something else by the Kinks (1967). Este, por sinal, sempre me lembra do caminho entre o Terminal Bandeira e meu antigo apartamento, na Nove de Julho: gravado em uma fita cassete, acompanhou-me durante as viagens de ônibus por todo meu primeiro ano de faculdade (no lado B da fita estava Roger the engineer, dos Yardbirds, e algumas faixas dos Easybeats). Em minha opinião, Ray Davies é um dos maiores letristas pop de todas as épocas: suas descrições dos tipos e da vida cotidiana no reino Unido valeriam um estudo mais detido e aprofundado.

*

Os Kinks foram uma das bandas britânicas mais bem-sucedidas dos anos 1960, mas, nos anos 1970, estavam mal das pernas. No “período RCA” (entre 1971 e 1976), gravaram vários musicais (Preservation Act I e II, A soap opera e Schoolboys in disgrace), geralmente mal recebidos pela crítica e suportados apenas pelos fãs mais hardcore (como eu e o Sandro, por exemplo).

É bem verdade que, durante um breve momento, Ray Davies até esteve feliz e em paz com suas criações, mas estava claramente sacrificando o elemento “roqueiro” em sua produção. Além disso, embora suas composições ainda mostrassem lampejos de sua genialidade, as narrativas que tentavam municiar eram confusas e, por vezes, ingênuas. Muita gente, à época, dizia que era possível encontrar três ou quatro boas canções nos álbuns, desde que se desconsiderasse a estória que estava sendo contada em cada um deles. As encenações até recebiam certos elogios por parte dos críticos de teatro, mas, progressivamente, foram sendo simplesmente deixadas de lado pelo público. Isso para não falar que os Kinks foram, ao longo dos ambiciosos projetos, perdendo sua essência como banda de rock, transformando-se em simples músicos de acompanhamento para as ideias de Davies. Ray, por sua vez, estava enfrentado os usuais problemas com álcool e drogas, além de um divórcio complicado.

Por volta de 1976, Mick Avory e Dave Davies, membros originais do grupo, estavam claramente insatisfeitos. Os Kinks estavam em baixa no Reino Unido e eram solenemente ignorados nos EUA. A pressão era grande para que emplacassem alguma coisa. Após muita briga, Ray simplesmente cedeu: findo o contrato com a RCA, um novo acordo foi feito com a Arista. A condição do negócio, contudo, era que a banda não lançasse mais discos “conceituais”. O resultado foi comercialmente bem-sucedido: Sleepwalker, em 1977, alcançou o Top 50 da Billboard. Mas foi Misfits, lançado no ano seguinte, que os confirmou novamente como uma banda de verdade.

*

Seria muito fácil falar bem de álbuns como Something else by the Kinks (1967), The Kinks are the Village Green Preservation Society (1968) ou Arthur – or the decline and fall of the British empire (1969) [meu favorito, nos últimos dias, tem sido Lola vs. Powerman and the Money-Go-Round (1970)]. Difícil é tentar salvar um disco como Misfits.

Primeiro, sugiro dar uma olhada para os lados; que outros álbuns estão rolando em 1978? O Clash havia lançado Give ‘em enough rope, que trazia “Safe european home”, “Tommy gun”, “English civil war”, “Stay free” e “All the young punks”. O Jam vinha com All mod cons, com pepitas como “In the crowd”, “Mr. Clean” e “Down in the tube station at midnight”. Police (Outlandos d’amour), Blondie (Parallel lines), Talking Heads (More songs about buildings and food), Ramones (Road to ruin), Pere Ubu (The modern dance) e Patti Smith (Easter) também tinham feito coisas admiráveis. Isso para não mencionar o pessoal da mesma geração dos Kinks: Stones e Who soltavam seus últimos grandes álbuns (respectivamente, Some girls e Who are you); outros velhotes como Dylan e Neil Young também não faziam feio. E mais: todos vinham com grandes “fardos” nas costas, desde que os Pistols, em fevereiro, haviam se desfeito. Bom, a ressaca era tão grande que até a China enfrentava mudanças radicais.

*

Não consigo deixar de pensar que Misfits é, ainda, um disco de Ray Davies and the Kinks: a banda passava por mais uma troca de músicos (o baixista Andy Pyle e o tecladista John Gosling, que já eram membros da terceira formação, estavam deixando o time) e Ray controlava tudo com mão de ferro, da composição à produção. A instrumentação soa afiada, embora haja um ou outro escorregão [Por exemplo, o uso “equivocado” dos sintetizadores em “Hay fever” e “Permanent waves”. Por que “equivocado”? Compare com o que Townshend está fazendo em “Who are you”, “New song” e “Sister disco”, na mesma época]. O que chama a atenção nesse tocante é a transformação insidiosa que as guitarras estão sofrendo: longe vão os power chords de “You really got me”, “All day and all of the night” e “I need you”; o lance agora é usar licks e efeitos de arena. Dessarte, cada canção parece devidamente “sanitizada”, como que aprontada para tocar nas rádios à exaustão. Isso significa repetição: pelo menos metade das faixas usa a fórmula de começar com uma introdução lenta e climática para, depois, acelerar a batida e se tornar algo que dançante. Todas as músicas têm refrões definidos, assobiáveis, que entram logo depois dos versos preparatórios. Ou seja, a velha fórmula dos 32 compassos.

Bom, falando assim, parece que se trata de um disco ruim. Muito ao contrário. Meu argumento, aqui, é que Ray Davies mergulha de tal maneira na “fórmula do sucesso” que consegue encontrar e extrapolar seus limites. Em outras palavras, ao invés de ser devorado no processo, ele se aproveita dos clichês comercialoides do padrão radiofônico para fazê-los soar como ele mesmo. E renasce. [Em minha imaginação, Ray está pensando algo como “canções fáceis? Darei a eles canções fáceis… nos meus termos!”] “Misfits”, a homônima faixa de abertura, e “Rock’n’Roll Fantasy”, pouco lembram “Waterloo sunset”, “Australia” ou “People take pictures of each other”, não trazem elementos vaudeville ou riffs marcantes; contudo, ainda assim, soam como clássicos dos Kinks – há a nostalgia nas melodias, a desilusão e a dúvida nas letras, a tensão nos arranjos. “Live life”, apesar da letra um tanto ingênua (no mau sentido), é ganchuda, firme e põe Dave Davies na frente, lembrando que a guitarra ainda é o elemento essencial da música dos Kinks. E, por falar em Dave, há “Trust your heart”, provavelmente a melhor coisa que os Kinks gravaram depois de “Here Comes Flash” (de 1973): um arranjo inspiradíssimo, em que nunca se sabe direito para onde a canção vai.

É provável que, à primeira audição, nada soe como Kinks. Mas, depois que se entende a unidade do disco – no todo, é um álbum muitíssimo considerado e bem executado -, percebe-se que as faixas contribuem para a sensação de que o passado, finalmente, ficou para trás. Não é um disco “emocionalmente pesado”, mas é um disco de alívio e aceitação. Don’t wanna spend my life living in a rock’n’roll fantasy. São Kinks sem a fúria e a disposição anteriores, mas ainda são Kinks.

*

Por fim, parece-me sintomático que, em Misfits, haja espaço para uma canção como “Out of the wardrobe”. Musicalmente, tudo é muito convencional, no bom sentido, e o arranjo é feito para favorecer a letra. A música narra a experiência de uma “chick called Dick”, que é alta e tem braços peludos. No caso dos Kinks, é impossível não lembrar de “Lola” (1970). Vejamos:

(…)

The day he came out of the wardrobe
Betty Lou got quite a surprise
She didn’t know whether she should get angry or not bat an eye
She really couldn’t call up her mother
Mama would positively die
Should she go or stay or should she try to get a trial separation
You see, he’s not a faggot as you might suppose
He just feels restricted in conventional clothes
Cause when he puts on that dress
He feels like a princess

He’s not a dandy, he’s only living out a fantasy
He’s not a pansy, he’s only being what he wants to be
Now his life is rearranged and he’s grateful for the change
He’s out of the wardrobe and he’s got no regrets

Betty Lou didn’t know what to do at first
But she’s learning how to cope at last
She’s got the best of both worlds
And she’s really in a state of elation
She says it helps their relationship
She says a change is as good as a rest
And their friends finally coming ‘round to their way of thinking
She wears the trousers and smokes the pipe
And he washes up
She helps him wipe
Cause when he puts on that dress
He looks like a princess

Em comparação, Lola:

“(…)
I met her in a club down in North Soho
Where you drink champagne and it tastes just like cherry cola
(…)
She walked up to me and she asked me to dance.
I asked her name and in a dark brown voice she said, “Lola”
(…)
Well, I’m not dumb but I can’t understand
Why she walk like a woman and talk like a man
(…)
Well, we drank champagne and danced all night,
Under electric candlelight,
She picked me up and sat me on her knee,
And said, “Little boy won’t you come home with me?”
(…)
I pushed her away. I walked to the door.
I fell to the floor. I got down on my knees.
I looked at her, and she at me.

Well that’s the way that I want it to stay.
And I always want it to be that way for my Lola.
(…)
Girls will be boys, and boys will be girls.
It’s a mixed up, muddled up, shook up world,
Except for Lola

Well I left home just a week before,
And I’ve never ever kissed a woman before,
But Lola smiled and took me by the hand,
And said, “Little boy, gonna make you a man.”

Well I’m not the world’s most masculine man,
But I know what I am and I’m glad I’m a man,
And so is Lola.”

É aqui que o “novo” e o “velho” Ray Davies são postos vis-a-vis. Onde antes havia a possibilidade, há agora a certeza. Perde-se algo, ganha-se algo e as coisas não permanecem sempre as mesmas.

Misfits é, sem dúvida, um baita disco – um álbum contra o qual qualquer jovem banda de rock deveria se medir. Claro, alguém dirá, com razão, que, perto do que os Kinks já foram capazes de fazer, é apenas um bom arremedo. Mas, depois do punk/1977, o rock foi algo diferente?

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