Blablablá

Ninguém precisa de Prescott Dixon

Leio que Prescott Dixon morreu ontem, 21 de abril, no Reino Unido, após uma longa e silenciosa batalha contra a esclerose múltipla, aos 69. Segundo Bonnie, sua companheira de toda a vida, Dixon manteve a lucidez até o último instante e estava desconfortavelmente instalado em uma cama de um hospital em Essex, havia pouco mais de um mês. Noticia-se que morreu conversando com alguns enfermeiros, enquanto refletia sobre a cena mod londrina, nos anos 1960.

Tive a oportunidade de encontrá-lo em janeiro de 1999, quando fiz uma viagem de turismo à Nova Iorque. Eu estava hospedado em um studio que ficava em um prédio a cerca de duas quadras de uma loja de discos muito boa, chamada Earwax; Prescott Dixon, naquela ocasião, estava autografando cópias do primeiro de seus únicos dois álbuns solo. Lembro-me que era uma tarde fria de terça-feira e, para minha surpresa, havia pouca gente no local. Naquele momento, o Brasil havia quebrado e as cotações do câmbio estavam completamente doidas, de modo que eu estava meio ressabiado em gastar em vinis e cds um dinheiro que não sabia se estaria lá quando a fatura do cartão viesse. Mas, diante da imponente figura de Dixon – paletó xadrez, camiseta branca, cabelos e costeletas grisalhos, magro e com o indefectível cigarro nos dedos da mão esquerda -, resolvi mandar as preocupações econômicas para a casa do chapeu. Pude, então, passar uns 90 minutos conversando com o lendário Prescott Dixon, o cryin’ guitar ele mesmo!

Guitarrista talentoso, o galês Dixon era figurinha fácil entre as bandas de R&B que tocavam nos inferninhos da moda em 1962/3. Eram tempos mais difíceis, embora o pior tivesse ficado para trás. Toda uma geração de moleques londrinos, pela primeira vez, estava genuinamente interessada em rock’n’roll. Elvis tinha feito muito sucesso por lá anos antes, mas o cara tinha entrado para o exército. O skiffle fora uma febre por algum tempo e artistas como Lonnie Donnegan, Cliff Richards e Johnny Kid & the Pirates tinham conquistado um certo público, que os via, pela primeira vez, em programas de televisão. Os bares dos hoteis e os pubs ofereciam o palco para os iniciantes, jovens aspirantes a Beatles (que, aliás, estavam começando a acontecer). Segundo Eddie Phillips, do Creation, “Prescott foi o primeiro inglês a empunhar uma Rickenbacker… ninguém nunca havia visto ou ouvido nada parecido até então. George (Harrison) ficou maluco e quis uma igual… Mas foi Hilton (Valentine, guitarrista dos Animals) quem conseguiu comprá-la de Prescott, pagando uma grana altíssima, meses mais tarde, que havia recebido por ‘House of the rising sun'”. Embora fizesse muito sucesso com as meninas que o perseguiam insistentemente no circuito de shows, Dixon decidiu muito cedo que seu negócio era o estúdio: logo que Shel Talmy o convidou para participar de sessões de gravação, resolveu abandonar os palcos. Em uma célebre entrevista à Melody Maker, em março de 1966, explicava que se divertia muito mais “procurando maneiras sônicas de expressão” e que agia como um pintor diante do dilema “tela ou não tela?”. Sua busca por novos sons havia se feito sentir no mainstream: foi seguindo seus conselhos que John Lennon e George Martin decidiram manter o feedback na introdução de “I feel fine” e, da noite para o dia, todo guitarrista “quente” queria suas dicas e ideias. Ou, o que era mais improvável, todo guitarrista “quente” da cena londrina queria ser melhor que Prescott Dixon. Mas ele frequentemente estava um passo à frente de todos: ainda em 1965, causou furor quando substituiu o solo de guitarra em “Wild Thing“, megasucesso dos Troggs, por um solo de… flauta doce! “Ora, a canção toda havia sido construída por camadas e camadas de guitarra”, explicou à revista Creem, em dezembro de 1972, “e seria a coisa mais natural do mundo estragá-la com mais notas na guitarra”. Aliás, foi no backstage do festival Monterrey Pop, em 1967, que Jimi Hendrix receberia uma dica valiosa: “Dixon e eu estávamos fumando um, quando lhe contei que encerraria meu show com um cover de ‘Wild Thing‘. Ele riu e fez uma careta de desaprovação… perguntou se eu faria um solo e eu lhe disse que provavelmente… Prescott ficou em silêncio durante uns minutos e me disse ‘hey, faça o seguinte, então: ao invés de clichês ou fingertappings, toque algo diferente, como Trini Lopez ou Sinatra no meio da canção’… aquilo ficou martelando na minha cabeça, que maluquice!”.

Prescott Dixon figurou em mais de cinquenta hit singles entre 1964 e 1969, estando frequentemente em dois ou três sucessos no top 20 inglês, simultaneamente. No início da década de 1970, no entanto, após ter recusado entrar no Blind Faith (indicando, para as seis cordas, seu cunhado Eric Clapton) e tendo sido preterido por John Lennon na gravação de Imagine (1971) – “pô, passamos dois meses ensaiando quase que diariamente e o cara, em cima da hora, decide chamar o George! Lennon era um baita de um cusão, às vezes” – Dixon resolveu radicalizar: comprou uma pequena propriedade nos arredores de Kingston, Jamaica, e abandonou a música pop. Durante um tempo, ninguém sabia de seu paradeiro. Muita gente o deu por morto e houve até mesmo uma investigação não-oficial da Scotland Yard para averiguar uma suspeita de homicídio. No entanto, sua mãe, que estava, à época, confinada em uma cama de um hospital em Essex, vítima da mesma esclerose múltipla que o mataria, continuava a receber cheques quase que semanais. Foi a jornalista Bonnie Pillmouth quem o “descobriu” nos trópicos. Contrariando as súplicas de Dixon, Bonnie “entregou-o” à mídia, fazendo com que um rolo de Super 8 chegasse aos estúdios do Old Grey Whistle Test, então comandado por Bob Harris. De uma hora para outra, a Jamaica passou a ser alvo de especulações, o lugar para se estar. Dixon, então, sentiu que era o momento certo de partir e, já casado com Bonnie, voltou para Londres no outono de 1973. Ficou hospedado provisoriamente na casa de seu agora ex-cunhado Eric, para quem mostrou um então obscuro compacto dos Wailers, com “I shot the sheriff”.

A uma certa altura do papo, Prescott me pediu o isqueiro emprestado e me perguntou sobre o Brasil. Falei de coisas vagas durante uns dois minutos e ele me interrompeu: “quero saber sobre a cena, mate. Quem são os grandes?”. Na hora, balbuciei “Mutantes!” e ele abriu um sorriso. “Mutantees? Estive com eles em Paris, em 1970″, contou-me. “Sergio Dias – um grande guitarrista, por sinal – não quis que eu tocasse no álbum que estavam gravando. Não por medo, afinal aquele cara me põe no bolso. Mas, por integridade, para manter a pureza da banda”, confidenciou. “De toda forma, eu não poderia fazer melhor do que ficou na fita”. Naquela época, Technicolor ainda não havia sido lançado e eu, como muita gente no Brasil, não sabia da existência daquele registro. Prescott se assustou: “como assim? Nunca lançaram? Você tem certeza?”. Eu, na verdade, não tinha. “É uma pena… mas acontece. Sempre e muito. Há mais coisa boa nos arquivos das companhias que nas prateleiras das lojas de discos…”.

Em 1974, Dixon e Bonnie se mudaram para São Francisco, nos Estados Unidos, e lá tiveram seu primeiro filho, Dennis. À época, marido e mulher andavam viciados em heroína e flertavam com seitas religiosas estranhas. Em um evento bastante confuso, até hoje não completamente explicado, a família Pillmouth-Dixon sofreu um acidente sério, quando o avião mono-motor em que viajavam fez um pouso forçado em uma fazenda na Carolina do Norte, após ser alvejado por tiros. Apenas o co-piloto, Prescott e Bonnie sobreviveram ao impacto. Tendo perdido o filho de 8 meses, Dixon tentou o suicídio e foi internado em um hospital psiquiátrico por um longo período, entre maio e setembro de 1975. Quando teve alta, declarou-se livre das drogas, retomou seu casamento com Bonnie e comprou uma pequena fazenda na Suiça. O New Musical Express, em janeiro de 1977, tentou, em vão, promover o encontro entre Dixon e um jovem fã, Joe Strummer – surgiu aí a famosa matéria de Nik Cohn, sobre o “fim de semana perdido nos Alpes”, que motivou sua demissão do NME. “Vendi discos, agora vendo leite. Vacas e músicos, qual a diferença? No fim do dia, todos têm de aceitar o preço que o mercado determina!”, poderou um amargo Prescott, em uma carta enviada ao mesmo NME meses depois. “Vamos todos nos fazer um favor? Esqueçam-me!”, esbravejou.

No final, seu desejo foi atendido. Nada de Prescott Dixon durante os anos 1980 e 1990. O silêncio foi quebrado quando Tony Visconti o convidou para gravar algumas guitarras em Do it yourself, dos Seahorses. Era 1997, a América parecia ter as portas abertas para a felicidade. Visconti ficou impressionadíssimo: “estava mais velho, claro, mas mantinha a graça. Gravou seis músicas em one-take. John Squire ficou uma semana sem usar absolutamente nada, completamente chapado com a capacidade do velho Dixon em dar alma às canções”, declarou à Uncut à época. Bonnie havia vindo passar uns dias para acompanhar o marido em Nova Iorque, onde parte das gravações estava acontecendo, e acabou decidindo ficar. Certa noite, após algumas garrafas de refrigerante de cola – Dixon havia parado de beber, mas não de fumar -, Prescott mostrou a um embasbacado Visconti alguns rascunhos de canções; Tony, imediatamente, “exigiu” que Dixon gravasse um álbum e, passadas algumas semanas, conseguiu um acordo com a Atlantic Records para o lançamento. Inicialmente relutante, Prescott Dixon gravou, uma a uma, as maravilhosas faixas de Back to town, onde contou com os vocais de gente como Robert Palmer, Michael Des Barres e Kenny Pickett (Creation). “Damo and Malcom”, lançada como single em outubro de 1998, até galgou respeitosos n° 36, na Billboard, e n° 25, no NME, mas, evidentemente, os tempos eram outros. A Atlantic havia demandado uma tournée em suporte ao disco, mas Dixon não havia gostado da ideia; após semanas de tensão, decidiu-se que deveria, então, percorrer as lojas de discos e programas de rádio em várias cidades norte-americanas. Acabou topando.

Quando eu estava de saída, ocorreu-me de perguntar uma última coisa: “afinal, mr. Dixon, valeu à pena?”. Como lhe era peculiar, Prescott Dixon não titubeou: “a música teria sido a mesma, a chatice e os egos também, mate!”. Não havia aí falsa modéstia. “Se me ouviram ou não, azar o deles”.

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