Blablablá

Macacos no zoo

“Na vida?”, Benjamin me perguntou, seco.

Meneei a cabeça, confirmando.

Ele olhou para o nada e pensou um pouco.

“Bem” – acendeu mais um cigarro e inalou, com gosto – “a primeira coisa que me lembro é de estar deitado em minha cama – não devia ser mais que uma ou duas da manhã”, disse. “Havia barulho na sala ao lado e minha mãe ria como certas mulheres fazem. Era tarde da noite e a música rolava solta.”

Para falar a verdade, não entendi muita coisa, no início. Embora a estória parecesse confusa, de algum modo a narrativa me parecia bastante familiar e, devo acrescentar, eu me sentia confortável e curioso naquela conversa. Ele me olhava com o canto dos olhos, como que esperando alguma reação. A primeira coisa que me veio à cabeça foi contar sobre como minha mãe havia me preparado para ouvir rock. Ela mantinha umas velhas fitas de rolo, de 1/4 de polegada, com gravações instrumentais dos Ventures e algumas doces canções de Brenda Lee. Lembrei que ela ouvia muito uma fita cassete, com Love songs, dos Beatles, e o Greatest hits, de Simon & Garfunkel.

Benjamin parecia nervoso. Mordeu os lábios: aguardava alguém, explicou.

“Já lhe contei que vou me casar?”, inquiriu-me com naturalidade. Era óbvio que não: havíamos nos encontrado à toa, há alguns minutos. Com surpreendente intimidade, ele me disse que havia tomado essa decisão e que isso representava uma virada radical em sua vida. Confessou que não tinha considerado uma série de “fatores importantes”, próprios da “mediocridade pequeno-burguesa”, mas isso não seria um problema. O fundamental era tomar uma posição firme e, como sói um adulto, enfrentar as consequências, uma a uma, com bravura. Eu ponderei que os tais valores “pequeno-burgueses” tinham lá sua razão de ser, mas que, se a mulher tivesse o mesmo desprendimento, tudo poderia ser perfeitamente contornável.

Ele fez que não ouviu e me interrompeu. “A primeira coisa que eu me lembro de quando ela apareceu em minha vida foi de pensar ‘vou ficar com ela, não interessa o que aconteça’. É claro que eu já tinha me apaixonado antes e, uma vez ou outra, tinha quebrado a cara, mas eu nunca tinha amado ninguém assim”. Suspirei, como que concordando com alguma disputa imaginária. Anoitecia e, distante, uma música soava nos falantes espalhados pelo parque: Where have you gone, Joe DiMaggio?/A nation turns its lonely eyes to you. Despretensiosamente, propus: “por que, afinal, ‘Joltin’ Joe’ está na letra? Que isso quer dizer?”. Era uma pergunta retórica e Benjamin respondeu qualquer coisa. Ocorreu-me que eu já havia feito essa questão para minha mãe e que ela tinha tentado me explicar, de muitas formas, que certas referências eram importantes nas letras das músicas. No final das contas, ela nem sabia direito o que estava dizendo, mas eu entendi, pelo seu esforço, que era algo relevante. Eu tinha 9 anos e aquilo me marcou pacas.

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