Rock

Vida de operário

Como muitos, ouvi bastante punk rock durante a adolescência. À época, estávamos vivendo o “grande estouro” do rock brasileiro, que ocorrera a partir da “reabertura política” e que se consolidara com Plano Cruzado, em 1986. Foi a única vez, na história da indústria fonográfica nacional, que o rock, como gênero, foi comercialmente preponderante no Brasil. Enquanto as grandes gravadoras da época (CBS, WEA, Polygram e EMI-Odeon) lucravam horrores, pequenos selos independentes, normalmente ligados a lojas de discos, lançaram algumas bandas no mercado. [O correto, talvez, seja dizer “jogaram” ao invés de “lançaram”; afinal, as condições de distribuição e promoção dos discos eram tão ou mais precarias que as condições em que as gravações foram realizadas.] No caso de São Paulo, que, de certo modo, capitaneou esse processo “alternativo”, a maior parte dos discos independentes estava relacionada, direta ou indiretamente, com o punk (e suas derivações, como o hardcore, o pós-punk, o Oi!, o grind e o psychobilly; talvez seja válido, embora controverso, incluir aí as bandas metal, thrash e speed).

Bandas como Ratos de Porão, Cólera e Garotos Podres fizeram relativo “sucesso” no cenário; outras, como Inocentes, Violeta de Outono e Mercenárias, conseguiram cruzar o caminho em direção ao mainstream, com resultados mornos. A maior parte, como era de se esperar, não chegou a lugar algum. Dentre essas, uma das que mais me chamava a atenção era o Excomungados – talvez a “pior banda brasileira eternizada em vinil” de todos os tempos. [E isso não é um demérito, propriamente. No contexto do punk brasileiro, que levou em conta muito mais a dimensão do it yourself que a sonoridade, talvez seja esteticamente válido, até certo ponto, o “quanto pior, melhor”. Este, contudo, é um assunto que mereceria um exame muito mais detalhado que o que proponho neste post.] A banda, nascida no momento mais romântico do punk brasileiro (nos idos do Começo do fim do mundo, em 1982, no Sesc Pompeia) foi formada entre um apartamento e outro do CRUSP. De sua produção, a única coisa que considero realmente relevante é “Vida de operário”, canção que, curiosamente, ganhou duas outras versões (uma da Patife Band, outra do Pato Fu) – fato que, de algum modo, atesta uma certa qualidade “objetiva” da obra.

Composta por Ex e Falcão, “Vida de operário” é de uma pobreza musical exemplar: a melodia está baseada em duas notas nos versos e outras duas no refrão, deitadas sobre uma manjada variação entre os acordes D/Bm/C. Por outro lado, essa limitação está diretamente relacionada com a “beleza” da métrica, porque obriga o canto a ser praticamente falado; nesse sentido, apesar do “arranjo punk“, o vocal é mais próximo do rap que começou a ser feito no Brasil no final dos anos 1980. Sobre essa maquinação, a letra ressalta a rotina pesada e repetitiva do proletário e acusa a “ganância do patrão” pelo lucro. É uma peça ingênua e, quiçá, romântica que, a meu ver, funciona justamente porque os limites – musicais, líricos, intelectuais – estão evidentes o tempo todo. E, de outra monta, expressa a própria limitação dos jovens subempregados (ou desempregados), semi-alfabetizados, sujos, fedidos e sem perspectivas, moradores da periferia urbana, pouco acima da linha de pobreza absoluta, nos anos 1980. Sobretudo, representa também a capacidade de análise de certos jovens (uspianos) sobre a crítica situação sócio-econômica daquele período.

A sonoridade do punk brasileiro, então, tem a ver com a pobreza. Dessa constatação, penso eu, origina-se a grandeza da versão da Patife Band.

Imagino que seja necessário apreciar esta faixa no contexto do (fabuloso) disco Corredor polonês (WEA, 1987). O lance da Patife Band era incorporar elementos de “música séria” na linguagem rock: pitadas de atonalismo, dissonância e dodecafonismo, orquestradas por Paulo Barnabé, surgiam das guitarras criativas e precisas de André Fonseca, sobre a “cama” segura de Sidney Giovenazzi (baixo) e Paulo Mello (bateria). Há, na obra dos caras, um pensamento – um pensamento formalmente posto em termos musicais. Em minha opinião, é por esta chave que se deve entender o significado da versão de “Vida de operário”: ela faz muito mais sentido ao lado de “Tô tenso“, de “Pregador Maldito” ou de “Pesadelo“, por exemplo, que figuram no mesmo álbum. Fica claro, então, que a simplicidade do arranjo proposto pela Patife Band não significa limitação real, mas, ao contrário, indica a consciência da limitação da obra. O arranjo emula o sertanejo “de raiz”, gênero de preferência (ao lado do samba) do trabalhador de baixa renda, naquele momento. Pelas raízes rurais do proletariado brasileiro, a canção ficou muito mais, digamos, “imanente” à “vida de operário” que a saturação das guitarras, que caracterizam – [puta merda!] vou dar a cara ao tapa – a “análise externa” (no sentido de categorias apriorísticas) do original punk dos Excomungados. Em linhas gerais, o que quero dizer é que o uso das guitarras distorcidas e mal executadas para dar autenticidade à crítica presente na letra é um recurso que mais “fraco” que o uso do acordeão para acentuar a simplicidade “rústica” da melodia. Para ilustrar este argumento, um pequeno exemplo: descobri, há alguns anos, uma gravação homônima de Tonico e Tinoco. Neste caso, [embora eu não a aprecie de forma alguma, vejo-me obrigado a constatar que] a simplicidade da composição e do arranjo soma-se à letra e, ambientada no sertanejo, uma música mais “interessante” é criada. Uma “música mais interessante” no sentido de que seja uma peça com unidade, com pé e cabeça, compreensível em sua integridade. Veja, não estou dizendo que isso é mais “legal” ou que uma banda não deva tocar rock por ser brasileira. Muito menos que um jovem paulistano pobre não possa ser punk. Mas o punk brasileiro tem idiossincrasias – é neste ponto que indico a idealização “enfraquecedora” -, a violência do som, muitas vezes, pode significar uma “embalagem” que recobre uma ideia e não propriamente uma forma específica pela qual a ideia tem de se manifestar. Afinal, uma coisa é o desemprego estrutural em Manchester em 1976, outra coisa é o chão de fábrica em São Bernardo em 1980.

Por fim, é de se constatar que a versão gravada pelo Pato Fu, em 1995, é, por esta perspectiva, a mais problemática. A banda mineira apostou no gracejo em torno do caipirês, tirando o foco, portanto, do aspecto mais interessante do arranjo proposto pela Patife Band. A relação entre as deficiências da canção e a organização dos elementos é completamente desequilibrada, já que não são resolvidos os problemas de melodia ou de métrica, por exemplo. Claro, alguém há de lembrar que uma das características essenciais do Pato Fu é o bom humor. Entretanto, é preciso ter em conta que, se uma grande piada, quando contada mais de uma vez, cansa, que dirá uma troçazinha menor. É este o caso; e, assim, como não é possível nem rir e nem chorar, o melhor é, simplesmente, não ouvir.

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