Blablablá

Hades

[Ouvindo o último disco de Stephen Malkmus & the Jicks, o excelente Wig out at jagbags (Matador, 2014). Tchu-ru-tchu-tchu-tchu-tchu-ru…]

Eu não sei bem o que aconteceu durante os anos 1990, especialmente a segunda metade. Para mim, tudo é um pouco nebuloso, embora eu saiba, com uma precisão beirando o admirável, relatar os fatos vividos, em sua cronologia. Por certo, esse tipo de análise tem a ver com a idade, com essa fase espirituosa e estranha que vivo; ando avaliando e reavaliando, como que buscando o movimento daquela época, o sal daquele momento.

Os fatos, sim. Nos idos de 1997, estava eu recém-saído da graduação, sem banda (pela primeira vez desde a adolescência) e trabalhando com livros. Morava em uma república, estava começando um namoro. Minha dieta era baseada em soul music e R&B sessentista, embora de modo bem menos radical que alguns anos antes: à época, meu disco de cabeceira era Hip hug her, dos MG’s, mas também estava atento ao britpop, então em voga – estava curioso com Ocean Colour Scene e contente com Heavy Soul, do modfather – e aos espasmos do grunge. Acho que não seria exagero dizer que aqueles foram dias algo que confusos para o rock. Entre o cinismo raso e desbocado dos tabloides britânicos e suas bandas hips vazias e afetadas e o idealismo ingênuo do “re-punk” norte-americano, pouco sobrava. Yorke & Greenwoods, talvez; pouco mais que isso, certamente.

[I could see you falling in love/Every day people need love/With all their better halves, do the math/Everybody needs it long enough to let it go…]

Para mim, hoje, tudo aquilo foi, de certa maneira, o fim de uma era. Meu pai começara a desenvolver a doença que o mataria anos mais tarde e eu, em breve, entraria no mestrado, colocando a guitarra em segundo plano, para sempre. E nem era (só) eu: no mainstream, o brilho dos discos de ouro não reluzia com a mesma intensidade. A indústria ainda não sabia, mas estava com os dias contados, embora já tateasse o problema (o namoro com os independentes já rolava com certa intensidade). Há sempre uma canção tocando em minha cabeça. Não sei se isso acontece com todos, creio que não. Novos dias, novas canções? Nem sempre.

[… If love is Hades for all you Slim Shadys/It’s no wonder he smashes guitars/Turn the stage into a cool crime scene…]

Eu definitivamente não me lembro dos anos 1990.

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