Rock

Autoramas (Auditório Ibirapuera, 15.02.2014)

“Sem dúvida nenhuma, a banda mais importante do rock alternativo brasileiro!”, exclama Fabrício Nobre (MQN) ao final da animada versão de “Breed” (Nirvana), em sua participação especial, ao lado dos Vespas Mandarinas, no bis do show dos Autoramas.

Que diabos significa “rock alternativo”, nesses dias em que a indústria do disco está finalmente morta (morta, sim, mas cuja alma ainda vaga por aí, porque ninguém abre mão das moedinhas necessárias para pagar Caronte…)? Se, com esta expressão, quer-se designar uma linhagem de artistas que não respondem a um investidor externo direto, então, os Autoramas são, definitivamente, uma banda alternativa – e, talvez, a maior do Brasil, como indica, empiricamente, o recém-lançado “Autoramas Internacional“. O show em questão faz parte da tournée de lançamento do DVD.

Pessoalmente, o evento foi bastante marcante: o primeiro show de rock que meus filhos assistiram. Haveria nisto alguma missão pedagógica? Se eu não entendesse as coisas um pouco desta maneira, talvez não tivesse me disposto a sair de casa e fazer desse negócio um programa familiar. É claro que a diversão estava envolvida e era o objetivo da noite, mas era inevitável, para mim, pensar sobre a importância que aquilo tudo poderia ter na vida dos meus filhos, de 9 e 11 anos de idade. Por qual razão eles deveriam, em 2014, experimentar um show de rock – rock alternativo!? Sobre a experiência, para início de conversa, poderia-se dizer que o local era, no mínimo, estranho – afinal, os banheiros eram imaculados, os lugares eram numerados, o ar condicionado estava ligado e as saídas de emergência e os extintores de incêndio existiam e estavam devidamente indicados. Tudo parecia funcionar e a pontualidade foi observada. A acústica da sala provavelmente tinha sido arquitetada para bem menos que a metade dos decibeis gerados pelo JCM 900 de Gabriel Thomaz e havia assentos para bem mais que os 200 ou 300 “alternativos” que testemunharam o acontecimento. Nada disso importava. Quando a banda entrou no palco, “Mundo moderno” acendeu os ânimos de todos – eu, minha mulher e crianças também.

Os Autoramas têm uma proposta sonora bastante simples. Há um ar garagista, que remete a uma verve punk – mais ideológica (“faça você mesmo!”) que, propriamente, sonora (embora, de fato, esteja lá). Há boas doses de surf music, jovem guarda e B-52’s. Os elementos sessentistas estão muito mais acentuados depois que Flávia Couri assumiu as quatro cordas e isso pouco ou nada tem a ver com os modelitos de brechó que desfila. Decorrem do poderoso Rickenbacker que se apresenta em linhas sinuosas (em uma mistura não evidente de Macca, Jamerson e Foxton, ainda que a referência mais sexista fosse Carol Kaye), femininas. E esta é uma diferença fundamental, essencial, marcante, em relação ao “velho” Autoramas – que, para mim, era uma banda apenas “ok”. O “atual” Autoramas é o que apareceu em “Música Crocante” (2011), um disco que, para dizer as coisas concisamente, parece-me superior aos anteriores em apenas cinco quesitos: letras, músicas, arranjos, execução e produção. Um certo peterpanismo ranzinza (que marcava, especialmente, a fase com Simone do Vale) foi deixado para trás e a consistência musical de Flávia foi decisiva para que o som da banda passasse a um estágio superior. Este movimento, imagino, é atestado no DVD. Ao lançarem-se ao mundo, fazendo tudo eles mesmos, a cisma contra o mainstream perdeu importância e o som ocupou o centro da coisa toda. Agora, nada pode parar os Autoramas. Afinal, quem, hoje em dia, poderia frequentar os palcos do Astronete e o programa de Fátima Bernardes, tocar com BNegão e participar da rodada caça-níqueis do Barão Vermelho, sem perder a credibilidade? É possível tocar no Auditório Ibirapuera fazendo alusão ao baixo Augusta.

No show, o que me chamou bastante a atenção foi a precisão na execução de cada número. Em minha modesta opinião, “precisão” é um critério decisivo para avaliar power trios. Não é o único, claro. Mas a trama entre baixo, guitarra e bateria não comporta certos deslizes perdoáveis quando guitarras adicionais, teclados, sopros e performances vocais estão presentes no mesmo som. Os grandes trios da história – só para citar uns poucos, Jam, Cream, Experience, Police – são heroicos na medida em que concorrem de igual para igual com outros combos mais numerosos e barulhentos. E os Autoramas são afiados. Precisos. Bacalhau pertence à linhagem de bateristas “seguros”, que não se arriscam em viradas complexas e pomposas: pontua religiosamente a cabeça do tempo. Toca corretamente, mantendo a batida. O uso do bumbo, no mais das vezes, é “reto”, o que abre espaço para os floreios de Flávia e acentua o trabalho da mão direita de Gabriel. Este, por sua vez, não é um grande instrumentista, tecnicamente falando, mas é um guitarrista que precisa ser ouvido e apreciado. Seu domínio da palheta, por exemplo, revela a requerida precisão de que estou falando, permitindo que notas e acordes sejam claramente percebidos em favor de cada arranjo. E, claro, a escolha dos efeitos, bem como uma certa preferência por solar em notas mais baixas (usando muito as cordas superiores da guitarra), acabaram se tornando marcas registradas de um estilo bastante distintivo.

Ainda que o repertório estivesse concentrado no material mais recente, canções como “Carinha triste”, “Catchy Chorus”, “Ex-amigo”, “Megalomania”, “300 km/h” e “História da vida de cada um”  fizeram alusão aos 15 anos de estrada. Encaixam-se harmoniosamente com “Abstrai”, “Domina”, “Verdugo” e “Tudo bem”, indicando que existe uma identidade, na sonoridade da banda, preservada, afinal (é preciso ressaltar, contudo, que as linhas de baixo das músicas mais antigas foram refeitas e detalhes vocais mais ricos foram acrescentados). Parecia claro que todos, sem exceção, estavam se divertindo pacas. As pessoas obedeciam fielmente aos comandos do “mestre de cerimônias” Gabriel, encarregado das piadas e da animação geral do público, entre um e outro número. Também havia uma espécie de sensação de que todos estavam juntos lutando contra esse inimigo real-abstrato, o “sistema”, o “esquemão”, que mantém a “boa” música fora das playlists, em favor dos “vendidos”. Mas isto não é um privilégi0 ou uma especificidade dos shows dos Autoramas. É algo entranhado neste tipo de público, um sentimento gravado definitivamente, como nas coloridas tatuagens em que todos, salvo raras exceções (eu, minha mulher e as crianças), exibiam seus manifestos de individualidade. Dizer que o som dos Autoramas “cresceu” porque a briga contra o establishment ficou para um segundo plano pode soar como uma espécie de heresia. Dizer que o show dos Autoramas foi legal porque o som estava bom e o ambiente era seguro e confortável, também. Mas, é digno de nota lembrar que o set list foi executado sem que houvesse espaço para sobressaltos ou improvisos. Que a estrutura geral das canções foi fielmente observada, sem que se arriscasse um andamento diferente ou novas incursões guitarrísticas. O que quero dizer é que “execução precisa” não é a mesma coisa que “execução eficiente”. Os Autoramas são precisos – porque quase não erram acordes, notas, vocais e, sobretudo, o compasso, ao vivo – e eficientes – porque tocam exatamente o que o público quer ouvir, sem sustos ou surpresas. São bons no que fazem porque trabalham muito para isso. Planejam, com afinco, a carreira. São, enfim, profissionais.

No final, o cansaço e o suor eram as opiniões mais eloquentes. O rock alternativo no Auditório Ibirapuera é uma instalação na Bienal. A missão pedagógica deste pai, calvo e de costeletas grisalhas, está cumprida. As crianças experimentaram uma nova sensação e eu revisitei meus fantasmas.

Cara, o Estige é um rio comprido demais.